Era caso de crescer o nariz

Por Silvana Rizzioli

Infelizmente, somente o nariz de Pinóquio cresce sob o impulso de uma mentira. Do contrário, o senhor Fabio Porta, candidato do Partido Democrático ao Senado italiano, iria vergar sob o peso do seu apêndice nasal. A alusão, melhor dizendo, a afinidade caricatural de Porta com o jovem personagem criado pelo florentino Carlo Collodi é a primeira ideia que vem à cabeça ao ouvi-lo dissertar sobre seu protagonismo a respeito do novo consulado da Itália em Belo Horizonte, cuja inauguração se deu na semana passada. Segundo seu palavrório, é de supor que ele, infatigavelmente, empunhou uma pá de pedreiro e assentou cada tijolo da construção, do alicerce ao teto, para depois tomar de uma brocha e pintá-lo e com a desfaçatez à altura das vastas abas das suas narinas.

Infelizmente, cidadãos ítalo-brasileiros, o senhor Fabio Porta nos obriga a apresentar-lhes este grotesco relato, face às invencionices que lançou contra ouvidos desprevenidos e desprotegidos, produzindo justa e necessária indignação com seu paupérrimo oportunismo eleitoral. Os senhores não merecem tal infortúnio. Melhor seria que estivessem recebendo propostas úteis e consistentes, que são bem vindas de todos candidatos bem intencionados e construtivos, diga-se de passagem, em um pleito eleitoral. É isso, afinal de contas, que um eleitor espera ouvir para sopesar seu voto. Como poderá fazê-lo sadiamente, se estiver tratando fantasias que se desfazem no ar a um simples sopro, conforme ocorreu com a casa de palha de dos três porquinhos? Em torno dessas historietas infantis se desfaz o mais alto valor da Democracia, que é o debate eleitoral iluminador destinado a orientar a boa escolha dos cidadãos.

A mentira traz, embutida, a perversidade de produzir efeitos maléficos a partir da distorção consciente da verdade, exceto os casos de megalomanias, que não parecer ser o de Porta, nos quais a morbidez deve ser compreendida.

Joseph Goebbels (1897-1945), o talentoso Ministro da Propaganda de Adolf Hitler apregoava que uma mentira, repetida com maestria e intensidade, acaba, em algum momento, se transformando em verdade. E tinha razão, pois tanto martelou sua tese, que o Nazismo acabou por seduzir toda uma nação. William Shakespeare (1574-1616), cuja genialidade literária expôs as profundezas da alma humana, ensinou que Otelo acabou por assassinar a inocente Desdemona, movido pelas pérfidas mentiras engendradas e manipuladas por Iago. Felizmente, para todos nós, Fábio Porta não carrega tal habilidade, demonstrando que a Genética também sabe ser sábia. Se não fosse assim, provavelmente nos convenceria que, além de ser responsável pela nova sede do consulado belo-horizontino, também ergueu a Fontana di Trevi, ombreando com Niccolò Salvi, Gian Lorenzo Bernini e Giuseppe Pannini. No entanto, o único resultado da sua obra é este texto deselegante, redigido a contragosto por fazer parte de um contexto apequenado, que fere a grandeza democrática de uma eleição.

É possível que o senhor Porta recorra ao argumento de que está sendo atacado por adversários políticos, interessados em desconstruir sua boa imagem na luta por votos. Não se trata disso, inclusive porque, nesta altura da eleição, talvez o pleito já esteja praticamente definido. Em todo caso, o seu brilhareco, feito na semana passada junto ao embaixador da Itália no Brasil e demais autoridades italianas e brasileiras, poderia ganhar alguma luz, se ele apresentasse provas da sua mobilização relativa à casa inaugurada, lembrando sempre que, ao cabo, o procedimento estaria na alçada das suas obrigações.

Mentir numa eleição resume a intenção de enganar toda uma sociedade.

Isto absolve a eventual agressividade da nossa indignação. Tudo tem limite!

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