O primeiro, e escondido herói ítalo-brasileiro

Januário Fiori ofereceu seu sacrifício para termos a vacina da febre amarela

Provavelmente, a maioria dos brasileiros jamais ouviu falar de Januário Fiori.  Tampouco o seu nome está incluído nos nossos livros de História. Aliás, a informações a seu respeito são raras e esparsas. Sabe-se apenas que havia chegado da Itália em 1886 e tinha 23 anos quando foi protagonista de um acontecimento relatado a seguir, no qual fez por merecer o título de primeiro, e anônimo, herói ítalo-brasileiro que se tem notícia.

O desassombro de Fiori nos conduz ao mês de janeiro de 1903

Adolpho Lutz

na capital paulista. Desde 1898 a cidade, e boa parte do interior, enfrentava um poderoso surto de febre amarela que, ao cabo de 1904, ao ser debelado, somou cerca de 30 mil mortos. A quantidade de vítimas pode dar uma ideia do desespero que sobrevoava todo o estado. O presidente Fernando Prestes, designação que a República Velha dava aos governadores, teve o tirocínio de nomear o médico infectologista Emilio Ribas (Pindamonhangaba 1862-São Paulo 1925) diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Nesse tópico é imperioso, e justo, lembrar que Ribas é um dos inventores da Medicina brasileira ao lado Adolpho Lutz, Carlos Chagas e Vital Brasil, numa época em que médicos, ingenuamente, ainda tentavam curar com sangrias e tisanas.

 

Dr. Emilio Ribas

Ribas estava convicto de que a transmissão da doença se davas pela picada de mosquito, e não através da água, como se imaginava e estava consagrado. Sua crença se devia a estudos próprios e às antenas sensíveis da curiosidade cientifica que o mantinham ligado aos colegas do Exterior, particularmente dos Estados Unidos, que pesquisavam a doença no Caribe No intuito de convencer a população paulista a combater criatórios de mosquitos para deter o surto, ele se propôs a fazer experimentos de contaminação proposital. Quer dizer: voluntários se deixavam picar por insetos contaminados para comprovar a tese. Quanto ao destino das cobaias humanas, fosse o que Deus quiser.  

Instituto Adolpho Lutz

Que presente de Natal – A experiência assustadora se deu entre os dias 15 de dezembro de 1902 e 20 de janeiro de 1903. Assim as coisas se passaram.

Rodrigues Alves

O primeiro passo consistiu em obter autorização institucional de Rodrigues Alves (*), então governador do estado. Em seguida foi instalada uma comissão científica de notório saber para acompanhar os trabalhos, formada pelos médicos Luiz Pereira Barreto, Antonio Gomes da Silva Rodrigues e Adriano Júlio de Barros. O processo da contaminação induzida foi rica em pormenores. 

. As larvas do mosquito Stegomiya fasciata foram recolhidas na cidade de Itu (104 km de São Paulo), aonde não haviam sido registrados casos de Febre Amarela. Sob o controle de especialistas, foram desenvolvidas no Instituto Bacteriológico, que é o atual Adolpho Lutz.

. Já adultos, os mosquitos virginais, vamos dizer assim, tiveram o destino de São Simão (280 km da capital), cidade fortemente atingida pelo surto, a fim de picar doentes locais.

. Devidamente contaminados, essa tétrica revoada retornou ao Hospital de Isolamento em São Paulo, hoje nomeado Emilio Ribas, para atacar o grupo de voluntários. Eis os abnegados que dele faziam parte: os médicos Emilio Ribas, Adolpho Lutz e Oscar Moreira; os cidadãos Domingos Vaz, André Ramos e Januário Fiori. O grupo foi encerrado num quarto com janelas e portas lacradas para evitar a intromissão de insetos externos.

Às 11 horas, contágio – Conforme o relatório elaborado posteriormente, os três médicos não manifestaram a doença. Suspeita-se que isso se deva aos seus contatos anteriores com epidemias, que favoreceram a imunização. Por seu lado, Domingos e André exibiram sintomas leves, que foram superiormente severos em Januário Fiori. Ele sobreviveu após ficar muitos dias às portas da morte. Segundo consta no relatório mencionado, Januário foi picado às 11 horas do dia 20 de janeiro de 1903, terça-feira. No dia 23, sexta-feira, começou a se sentir indisposto por volta do meio dia. Às 19h30 passou a ter forte cefalalgia (dor de cabeça); às 21 horas apresentou hiperemia (vermelhidão) das conjuntivas, face e tórax. A partir daí a Febre Amarela teve o seu curso normal. O único benefício de Fiori, após superar o transe, foi o de ficar completamente imunizado pelo resto da vida.

Em todo caso, os riscos não foram desprezíveis. No dia 13 setembro de 1900, num procedimento semelhante entre médicos norte-americanos na cidade de Baltimore, o doutor Jesse Lazear, que vinha estudando a doença, apresentou sintomas no quinto dia após a contaminação e veio depois a falecer.

É necessário destacar que Emilio Ribas, semanas depois, deu um passo a mais no convencimento de que a doença vinha apenas do mosquito. Mas desta vez, se heroísmo houve, foi o de vencer o asco. Na mesma cidade de São Simão, profundamente irritado com a incredulidade de pessoas sobre a transmissão comprovada, besuntou um dedo nas secreções de um doente e – argh! – levou- à boca. Que amor à ciência!

Naquilo que diz respeito a Januário Fiori, cumpriu humildemente o resto da trajetória de sua existência, carregando discretamente consigo a sua façanha de contribuir para a descoberta da vacina contra a Febre Amarela. Mas não ficaria feliz em saber em saber que seu sacrifício não foi suficiente para erradicar a doença entre nós.

(*) Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919), por coincidência, foi vítima de outra peste, a gripe espanhola. Morreu pouco antes de assumir seu segundo mandato como Presidente da República.

 

 

 

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