Sobre as águas do sofrimento – Dia do Imigrante Italiano

Capa do Livro de Edmondo de Amicis - "Em alto mar"

O Dia do Imigrante Italiano, que comemoramos em 21 de fevereiro, é uma data apropriada para lembrarmos o lançamento de um livro extremamente interessante, que passou despercebido embora, em princípio, mexa com os cerca de 30 milhões de brasileiros descendentes de italianos. Trata-se de “Em Alto Mar”, (Editora Nova Alexandria)), do italiano Edmondo de Amicis (1846-1908). Nas suas 317 páginas, De Amicis descreve como era a vida a bordo no vapor “Nord America”, de 1600 imigrantes italianos durante a travessia Gênova-Montevidéu.  Eram trabalhadores rurais, que vinham trabalhar ao Brasil, Argentina e Uruguai para trabalhar na roça. Viajavam de terceira classe em compartimentos escuros e mal ventilados situados nos porões, com dormitórios coletivos. Naturalmente o ambiente insalubre favorecia o surgimento e propagação de piolhos, sarampo, cólera e outras doenças, cujos mortos eram atirados ao mar, pois era impossível preservar os corpos na longa viagem que durava cerca de 30 das. Portanto, a narrativa de De Amicis é pungente e aflitiva desde o momento do embarque. Leiam os excertos iniciais.

“(…) Mulheres pobres com uma criança em cada mão, carregavam seus volumosos pacotes com os dentes: velhas camponesas de tamanco levantavam a saia para não tropeçar nos dormentes da ponte, mostrando as pernas nuas e magérrimas: muitas estavam descalças e carregavam os sapatos pendurados no pescoço. (…)”

“(…) Da escotilha escancarada vi uma mulher que soluçava forte como rosto enfiado no beliche: fiquei sabendo que, poucas horas antes de embarcar, sua filha tinha morrido quase de repente e que o marido precisara deixar o cadáver na agência de Segurança do Pública

Do porto, para que providenciassem o traslado para o necrotério. (…)”

“(…) À medida em que subiam a bordo, os emigrantes passavam diante de uma mesinha em que estava sentado o oficial Comissário, que os reunia em grupo de seis, chamados ranchos,

Registrando os nomes em papel timbrado que entregava ao passageiro mais velho para que, na hora das refeições, fosse buscar a comida na cozinha. As famílias com menos de ses pessoas se inscreviam com um conhecido ou com o primeiro que chegasse; durante o registro todos deixavam transparecer um forte temor de serem enganados na conta dos lugares reservados para os rapazolas e as crianças (…)”

Todo o livro é dominado por essa carga dramática própria do escritor. Autor de dezenas de livros, tem como obra-prima “Coração” (1886), uma belíssima série de contos comoventes. É uma espécie de mito literário que fez parte do currículo escolar no mundo inteiro, inclusive entre nós. Manuel Bandeira fez dele seu livro de cabeceira.

 

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