Nos caminhos de Ginetta

Ginetta Calliari e Chiara Lubich

Se você for trentino, certamente irá aguardar a data com fervor multiplicado, pois o sangue também pesa nos afetos e na admiração.  

Estamos nos referindo à Ginetta Calliari (Trento 15 de outubro de 1918-Vargem Grande Paulista 8 de março de 2001), cujo centenário de nascimento se dá no ano que está entrando. O fato atesta mais uma vez que a passagem do tempo é ilusória e que a História, ou o destino, se preferirem, é uma senhora definitivamente caprichosa. No primeiro caso, os 81 anos que passou pelo mundo equivalem a milênios, se for levada em conta a fecundidade da sua trajetória; no segundo, a explicação, por ser mais prolongada, fica para mais adiante (*). Por enquanto, basta nos deter sobre sua biografia que, para ser melhor avaliada, deve vir precedida da descrição dos caminhos de outra trentina, Sílvia Lubich. Na linha desses horizontes se coloca o Movimento dos Focolares.  

Os três cravos vermelhos  

A partir do dia 7 de dezembro de 1943, Sílvia Lubich, inadvertidamente, teve seu primeiro nome substituído por Chiara. Era professora, tinha 23 anos e, conforme aqueles mistérios que ocorrem em questões de fé, fez um pacto com Deus para servi-lo. Simbolizou-o com três cravos vermelhos. Ocorreu que Deus não estava interessado apenas em flores. Colocou-a para atender e confortar vítimas e refugiados dos bombardeios dirigidos contra a cidade de Trento naqueles idos da II Guerra, reservando-lhe, simultaneamente, planos futuros. O pequeno grupo de pessoas que a acompanhava passou, sem que precisasse planejar, a praticar o Evangelho diuturnamente. Começava a nascer ali o Movimento dos Focolares – (Focolari). Tratava-se de uma instituição laica de caráter ecumênico, que se propunha inicialmente a estimular e abrigar aqueles que desejassem aprofundar a espiritualidade à luz do Evangelho. O seu nome retrata perfeitamente o sentido do acolhimento: Focolare, em Italiano significa lareira e, por extensão, o aconchego afetuoso do lar. 

A extraordinária receptividade desdobrou-se na sua internacionalização e na materialização de novas e oportunas propostas, das quais devem ser destacados o Movimento Economia da Comunhão e o Movimento Político pela Unidade. O primeiro, dirigido às empresas, consiste em colocar a riqueza do trabalho sob a justa comunhão e a fraternidade; o segundo tomou forma de um laboratório internacional de estudos políticos à sombra do Cristianismo, envolvendo políticos, militantes e estudiosos.  Cabe mencionar sua expressão mais conhecida que foi Igino Giordani (1894-1980), cuja trajetória o colocou num processo de canonização atualmente em andamento.   

Silvia Lubich deve ter provocado admiração, pois as pessoas trocaram seu nome para Chiara, em alusão à franciscana Santa Clara, que tinha como característica o desprendimento, a solidariedade e a humildade. E assim ficou conhecida. Chiara-Sílvia explicou a sua notoriedade. “A caneta não sabe o que deverá escrever; o pincel não sabe o que deverá pintar; o cinzel não sabe o que deverá esculpir. Quando Deus toma em suas mãos uma criatura para fazer surgir uma obra da sua Igreja, a pessoa escolhida não sabe o que deverá fazer. É um instrumento. Creio que este é o meu caso”.  

Hoje o Movimento dos Focolare está presente em 182 países sob proteção do Papa. Chegou ao Brasil em 1959 e aqui Ginetta Calliari entra em cena.   

As duas moças

Ginetta conheceu Chiara em 1944, sob os escombros da guerra. Tornou-se seu braço direito e nunca mais se separaram. A rigor, a identidade de propósitos as tornou parecidas. Não se trata de semelhança física, mas sim, daquela misteriosa percepção que sinaliza a felicidade estampada no rosto das pessoas, por mais diferentes que sejam na sua aparência e até nas mímicas dos seus movimentos. Era isso que criava a similaridade. 

Ao dar-lhe a missão de trazer o Focolare para cá, Chiara escolheu a cidade de Recife. 

É provável que tenha sido despertada pelo reconhecido trabalho de Dom Hélder Câmara, então bispo de Olinda, em favor dos miseráveis. Chiara lhe disse. “Está na hora de deixar a Europa. Não lhe dou um crucifixo dos missionários. Eu lhe dou um crucifixo vivo”. Foi algo que Ginetta confirmou ao lhe escrever numa carta. “Aqui não dá para permanecermos passivos”. 

Após cinco anos de Nordeste, Ginetta veio para São Paulo e se fixou em Vargem Grande Paulista, a 45 km da capital. Ali está instalado o Centro Mariápolis Ginetta, que é a sede nacional do Focolare em nosso país. Mariápolis, como o próprio nome indica, significa Cidade de Maria. A instalação desses centros constitui a forma de organização e funcionamento do Movimento Focolare pelo mundo. Além de Vargem Grande Paulista, temos o Mariápolis de Igarassu (PE), de Benevides (PA) e unidades em Brasília, Manaus, Porto Alegre, Maceió e São Luís. É este o rosário de iniciativa que Ginetta Calliari deixou aqui. 

Centro Mariápolis Ginetta – Movimento Focolares – Vargem Grande Paulista – São Paulo

Chiara e Ginetta também passam por processo de beatificação.  

(*) Entre 1545/1563 a cidade de Trento abrigou o mais longo dos concílios da Igreja, que, aliás, levou seu nome. Foi presidido, sucessivamente, por quatro papas: Paulo III, Júlio III, Marcelo II e Pio IV. Históricamente, talvez tenha sido o terceiro em importância na Igreja Católica, entre os 21 realizados até agora, precedido justamente pelo primeiro, que teve lugar em Niceia, atual Isnik, Turquia (ano de 325) e o último, convocado para o Vaticano, de nome Vaticano II, entre 1962 e 1965. 

O Concilio de Trento, no qual foi instituída a Missa Tridentina, que sobreviveu até 1962, se caracterizou como resposta à Reforma de Martinho Lutero (1483-1546). De certo modo, essa reação marcou o fechamento da Igreja em torno de si própria. O Movimento Focolare, que teve como berço a mesma Trento, ao contrário,abriu-se para os cristãos em geral, alinhado com o Concilio Vaticano II, como que anunciando que Cristo é para todos.

Foto panorâmica da cidade de Trento

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