Aquela turma do Santa Helena…

Foi ali, na Praça da Sé, que surgiram os primeiros pintores carcamanos

Quem os visse caminhando em direção ao Palacete Santa Helena, na Praça da Sé, em São Paulo, conforme o faziam regularmente, iriam supor que se tratava de trabalhadores rumo aos seus sindicatos. Eram todos homens de ofícios rudes, cujas mãos calejadas, pele maltratada e a pequena maleta sugerindo marmita confirmavam.

Palacete de Santa Helena, em São Paulo

Alfredo Volpi e Mário Zanini, por exemplo, pintavam paredes; Clóvis Graciano, trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana; Alfredo Rizetti passava os dias debruçado sobre um torno mecânico. Havia até um açougueiro, Fúlvio Pennacchi, trazendo consigo a virilidade primária que caracteriza a profissão, evocando sempre um cutelo amedrontador. Com certeza, o único deles que recebera educação mais aprimorada fora Aldo Bonadei (1906-1974) que, aos 17 anos tivera aulas de pintura com o consagrado Pedro Alexandrino e que, antes dos 25, estava frequentando as aulas da Accademia Di Belle Arti Di Firenze. Ocorre que esses homens tinham uma vida dupla: enquanto se dedicavam aos seus trabalhos humildes para sobreviver, nas horas vagas encontravam-se para atender ao chamado da sua vocação artística, melhor dizendo, da pintura no palacete mencionado.

Quadro de Alfredo Volpi, “Mastros e Bandeirinhas”. Década de 70
Quadro “Mulher Nativa”, de Clóvis Graciano (1930)
Natureza Morta – Aldo Bonadei

Certamente esses nomes soam familiares para todos nós, pois eles se tornaram artistas admirados e, sobretudo, valorizados. Salvo engano, na sua última venda, em 2006, a tela “Mastro com bandeirinhas” de Volpi, abriu o leilão com o lance inicial de dois milhões
de reais. Por enquanto estamos no início dos anos 30.

Passarela de melindrosas – Em 1874 o presidente Domingos Faustino Sarmiento (*) começou a construir o Parque de Palermo, cujos 24 hectares de bosque com oito quilômetros de comprimento dá a Buenos Aires a atmosfera parisiense do Bois de Bologne. São Paulo também teve alguns soluços civilizatórios desse tipo e um deles foi o Palacete Santa Helena, inaugurado em 1925. Foi erguido por Albuquerque Lins, uma mistura de cafeicultor, construtor e político. Nesta última condição, foi presidente de São Paulo, como era chamado o governador na República Velha . A rigor, apenas um fato já justificaria sua passagem pelo cargo: promoveu a imigração japonesa, em 1908, completando a competência agrícola do estado, iniciada pelos italianos cerca de 60 anos antes.

Como convém à uma cidade rica, o palacete refletia seu luxo. Eram 10 andares com uma elegante fachada art nouveau que lhe conferia ares europeus e fazia imaginar melindrosas chiques circulando lá dentro com seus chapéus clochês imitando capacete militar, enterrados até a nuca, fazendo sobressair a maquilagem negra e os lábios em forma de coração. Num dos andares predominava o Cine Teatro Mundi que se transformara num templo de refinamento e fatuidade. Mas mesmo ali a cidade não traia suas raízes democráticas. Na sala 231 funcionava o ateliê dos pintores “plebeus” Mário Zanini e Francisco Rebolo. Ambos já possuíam recursos para sustentar esse luxo, portanto, encontravam-se num patamar acima dos colegas. Reparem que Rebolo é o primeiro nome não italiano a aparecer na nossa história, mas desse detalhe falaremos mais adiante. Por ora basta dizer que se Zanini era torneiro-mecânico, Rebolo ganhava a vida como jogador do Corinthians. Era descendente de espanhóis.

 

Menino com as cabras – Mário Zanini

O lugarzinho originou aquele que ficou conhecido como “Grupo Santa Helena”. Segundo já foi dito, vinham de camadas populares. Não por acaso Mário de Andrade, legitimado pela sua capacidade de farejar talentos artísticos à distância, chamou-os ironicamente de “artistas proletários”, algo que estava na moda devido o recente sucesso da Revolução Bolchevique. Para ampliar sua abordagem político sociológica, Mário disse que havia ligeira contribuição da pequena burguesia, representada pelo ourives Manuel Martins e o professor de desenho Humberto Rosa.

Em principio, esses pintores queriam recuperar os valores do Renascimento na pintura, indo na contramão dos modernistas de 1922 e da vanguarda da arte do realismo socialista, justamente eles que, pelo berço operário, deveriam constituir uma escola dadaísta ou uma espécie de soviete de pincéis, se obedecessem às pregações dos corredores da Sorbonne e os cafés esfumaçados do Quartier Latin. Ficava claro que o Grupo Santa Helena não pretendia pintar olhos nas nucas das figuras nos seus quadros e tampouco proclamar que um quadro “ não deve ter outra significação que não ele próprio”, seja lá o que isso fosse.

Paisagem ca. 1942 Humberto Rosa

No saguão do Esplanada – Pensando bem, o Grupo Santa Helena anunciou pela primeira vez, publicamente e em bloco, que os “carcamanos” , além de serem eficientes no trabalho duro e no empreendedorismo, também sabiam produzir arte. Nesse sentido, a exposição “Família Artística Paulista,” promovida pela entidade que levava esse nome e realizada no Hotel Esplanada em 1937, foi carregada de significados.

O Hotel Esplanada (1923), atrás do Theatro Municipal, era o símbolo mais ostensivo do luxo da capital. Ficou conhecido como “hotel dos artistas,” pois todas as estrelas e companhias de ópera que vinham se exibir no teatro ali se hospedavam. Todos os saraus e “soirées” granfinos não mereceriam esse nome, se não tivessem lugar no Esplanada. Por outro lado, a mostra de 1937 iria revelar uma estrelinha dos pincéis que começava a cintilar e que também trazia sobrenome italiano: Anita Malfatti. Na segunda exposição organizada pela Família Artística, desta vez no chique Automóvel Público, outro sobrenome carcamano ganhava holofotes: Cândido Portinari. Os italianos avançavam sobre os marcos do refinamento paulistano. O Hotel Esplanada fechou as portas em 1957. Passou a ser sede do Grupo Votorantim e hoje pertence ao governo estadual.

Diante da profusão de sobrenomes italianos que invadiram a arte brasileira a partir do século XX, é de se perguntar se as artes plásticas brasileiras , ou se a produção artística em geral, não seriam menos vistosas, caso os carcamanos não tivessem ido à luta.
O Palacete Santa Helena foi demolido em 1974 para dar lugar à estação do Metrô-Sé.

(*) O presidente argentino Domingos Faustino Sarmiento (1811-1888) é uma referência pedagógica proveitosa porém extremamente frustrante, para nós, brasileiros. Durante seu mandato, 1868-1874, ele propôs ao país um pacto em favor da educação, decorrente das gordas divisas provenientes da exportação de carne, lã e cereais. Na época, a Argentina tinha cerca de um milhão de habitantes. A educação formal tornou-se prioridade.

Sarmiento importou professores dos Estados Unidos para implantar um sistema de ensino que colocou o país na vanguarda do desenvolvimento. Suas bases sólidas conseguiram suportar até o peronismo; do contrário o país já teria soçobrado nas suas inúmeras crises político-econômicas. O resultado dessa política transparece nas conquistas argentinas. Taxa de alfabetização de 97,9%; cinco prêmios Nobel; dois prêmios Oscar de melhor filme estrangeiro.

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