O magnífico rapazola!

O Brasil viu um gênio surgir no Rio de Janeiro aos 19 anos

Arturo Toscanini foi um dos mais aclamados músicos do século XIX e XX.

As pessoas que jamais ficaram realmente de queixo caído, poderão passar pela experiência após a leitura deste texto. Simultaneamente, irão conhecer a primeira grande e decisiva aventura de Arturo Toscanini sua vida, que, por acaso, aconteceu entre nós.

Não estranhem a familiaridade do nome. Trata-se do célebre maestro e violoncelista parmesão, que, por ocasião dos fatos a serem relatados aqui não era famoso, tampouco requisitado. Ao contrário. Tinha 19 anos, estava tentando ganhar alguns trocados dedilhando seu instrumento e, a julgar pelos seus antecedentes, devia estar tirando o sono do pai. Fora reprovado numa tentativa de fazer parte da orquestra do Scala de Milão e contraíra algumas dívidas. Por isso, para se safar, juntou-se à uma companhia de ópera improvisada que veio realizar uma turnê caça-níqueis pela América do Sul. Há situações piores. Na sua divertida autobiografia (A Lua é um balão, Ed. Nova Época)o ator David Niven (1910-1983) escreve que, ao dar os primeiros passos como “extra” no cinema, dividia com colegas um trago do uísque intitulado”Neblina da Charneca” para ganhar mais desenvoltura em cena. Pelo nome, não devia ser um néctar.

Rebelião na platéia – Estamos na noite de 30 de junho de 1886, quarta-feira, com a lua nova no céu carioca. Das nove altas janelas na fachada do Theatro Dom Pedro II (*), no centro histórico do Rio, jorrava profusamente a iluminação a gás. A casa era imponente, a melhor da cidade, com 2 500 lugares, cuja guarda das cadeiras de jacarandá com assento de palhinha denotava o luxo: três recortes no encosto, dos quais, o do centro, esmaltado em preto e branco, anunciava a letra e o número. No piso superior, sobre a porta principal de quatro bandeiras, se localizava a tribuna imperial, onde a família real se comprazia com os espetáculos ou espiava os súditos assestando na platéia os minúsculos binóculos próprios de acompanhar óperas.

No entanto, por trás do habitual frufru mundano dessas ocasiões, as coisas não corriam

Leopoldo Miguez (1850 –1902)

bem nos bastidores. Isto se devia ao amor próprio ferido do maestro Leopoldo Miguez, que havia sido contratado pelos empresários da companhia para conduzir as apresentações na etapa brasileira. Até então, a excursão, iniciada em Buenos Aires, transcorria sem

sobressaltos. Mas na capital paulista começaram os problemas. A atuação do maestro não foi convenientemente apreciada, tanto do público como na imprensa. Produziu repercussões desagradáveis que chegaram ao Rio de Janeiro. O maestro, desgostoso, renunciou ao trabalho, provocando uma agressiva reação de apoio da população carioca. Isto deve ser creditado ao respeito que o maestro Miguez desfrutava na cidade e, talvez, à clássica rivalidade entre Rio e São Paulo que, em principio já estava instalada. (Aliás, o episódio está muito bem recordado no blog “Ópera Sempre”, de Henrique Marques Porto). Para piorar a situação, um dos responsáveis pelo espetáculo, que está citado apenas como Superti no noticiário a respeito, decidiu chutar o pau da barraca, como se diz hoje em dia. Anunciou, acirrando os ânimos,  que, ele próprio, sendo também regente, substituiria o brasileiro.

Naquela noite, em que seria apresentada a ópera “Aída”, de Giuseppe Verdi (1831-1901), a abertura das cortinas foi saudada com uma vaia ensurdecedora, que teria durado cerca de 30 minutos. Para nos apropriarmos de uma frase adequada, repetida à exaustão por Nelson Rodrigues, conforme fazia com todas as metáforas geniais que criava, a platéia urrava.

O herói ultrajado – No entanto, a intensidade da reação dos cariocas deve levar em conta o contexto da época. Simultaneamente aos brios ofendidos, o império ainda era uma nação que ensaiava os primeiros balbucios. É de supor que necessitasse de glórias artísticas para afirmar sua nacionalidade no sentido de equiparar-se ao mundo, leia-se Europa. Tais anseios tinham maior apelo na capital federal pela própria condição de principal cidade do país; provavelmente Leopoldo Miguez os personificasse. Embora tenha morrido cedo, aos 52 anos, já podia exibir uma obra que envaidecia nossos ascendentes: poemas sinfônicos; peças de câmara; uma ópera Os Saldunes…Talvez não estivesse no patamar dos grandes mestres europeus mas ninguém lhe tira o mérito de haver sido um excelente professor de música e inovador do ensino musical em nosso país.  Entrou para a nossa História por haver composto o Hino da República em 1890. “Seja um pálio de luz desdobrado/sobre a larga amplidão desse céu…” A rigor, com essa composição, havia vencido  o concurso para a escolha do Hino Nacional Brasileiro, promovido pelo Marechal Deodoro da Fonseca, então primeiro, e provisório, Presidente da República. A vitória não foi efetivada oficialmente. Deodoro mudou de ideia e tornou-a o Hino da República, movido aparentemente pelo calor da ocasião. A fresca república nascera no ano anterior, era o entusiasmo do momento que reclamava atenções e, principalmente, fora proclamada por ele. Segundo consta, levantara adoentado do leito, vencendo dores e desconfortos para subir no cavalo a fim de levantar sua espada para o céu no Campo de Santana. 

Fora! Bravo! –  Um segundo dirigente da companhia, signor Rossi, tentou, mas não conseguiu pacificar o público. Naquela altura, com certeza somente  Dom Pedro II seria bem sucedido, mas, infelizmente, no momento, devia estar ressonando no paço imperial de São Cristóvão.

Espetáculo Aída

O relato daquela noite sugere um levante popular prestes a explodir. Naquela atmosfera das barricadas de Paris que saltavam das páginas de “Os Miseráveis”, os músicos se reuniram e, criativamente, resolveram o impasse em alguns minutos. Determinaram que o fedelho de 19 anos seria o regente. A escolha não foi aleatória. Na convivência diária, haviam notado a centelha do gênio e sabiam que o rapaz conhecia profundamente a partitura de Aída, critério essencial para um maestro trabalhar. Por outro lado, a juventude de Toscanini iria enternecer a platéia furiosa. Toscanini fez mais: ao considerar que o excesso de luz no palco dificultava a leitura da partitura, porque o primeiro dos quatro atos se passa no Saara à luz forte do dia, simplesmente a fechou e regeu de cabeça. Coisa de virtuoses.  Não é pouca coisa, se ainda for levado em conta que a partitura original de Verdi exige um batalhão de executantes: 1 corne inglês, 1 clarinete baixo, 2 clarinetes, 2 fagotes, 2 harpas, 2 trompetes, 2 oboés, 3 flautas, 3 flautins, 3 trombones, 4 trompas; o numeroso grupo de cordas composto por violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Por fim, a percussão: gongo, pratos, tambor, timbalos e triângulo. De inicio, Toscanini não aceitou a tarefa. Mas consta que, alertado sobre a dissolução da companhia em decorrência do escândalo que interromperia sua fonte de renda, ele capitulou.

Os rugidos viraram aplausos que, ao final, se  prolongaram por quinze minutos, segundo registrou Oscar Guanabarino, respeitado crítico musical do jornal “O Paiz” (1834-1930), cujo redator-chefe era Quintino Bocaiuva.  Guanabarino escreveu. “Deu ele (Toscanini) sobejas provas de habilitações, sempre frio – entusiasmo e vigor”. Veio a consagração. Toscanini permaneceu mais dois meses no Brasil fazendo e acontecendo.

Naquela noite, a orquestra perdeu um violoncelista, mas a música assistiu à estréia daquele que viria a ser talvez o maior regente que já existiu.

Non si sa precisamente… – Esses acontecimento, segundo mostra o transcorrer do tempo, somente chegaram à Itália no mês de outubro de 1886, quando a publicação “La Riscossa”, de Parma, estampou artigo a respeito na seção Variazione Artistica, cujo trecho segue abaixo. 

A Rio agisce una compagnia di canto italiano, della quale fa parte la celebre Nadina Bulicioff, Il tenore Figner, Il basso Roveri, eccetera. Era stato fatto Il Faust, con splendido successo. Tutti i giornali portavano ai sette cieli gli artisti, ma si mostravano poco soddisfatti del direttore dell’orchestra, un certo Leopoldo Miguez, brasiliano, il quale a quanto pare, mostrò di non avere né pratica, né capacità per dirigere la magnifica orchestra che gli era stata affidata. Non si sa precisamente come andarono le cose: Il fatto è che il signor Miguez, punto nel suo amor proprio, mentre stava per andare in scena l’Aída, scrisse una bella lettera di congedo agli imprenditori; uno dei quali era il signor Superti (…) ebbe l’infelice idea di sostituire Il direttore in uscita. Non lo avesse mai fatto. 

(*) – Após a proclamação da República  a casa passou a se chamar Theatro Lyrico. Foi demolido em 1934.

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