Bravo, Dante Perini! Bravíssimo!

Um barítono de 90 anos virou a campanha de pernas para o ar

Dante e Wálter Fanganiello

Este texto está fugindo do seu propósito original, que é o de promover a campanha do desembargador Wálter Fanganiello Maierovitch ao Parlamento italiano como deputado. Foi trocado por um senhor de 90 anos, cujo único pleito é o de saborear a felicidade em cantar suas canções e árias prediletas. Esta inesperada, e rara, alteração de planos em eventos daquela natureza se deu na Pizzeria Margherita, na Alameda Tietê, nos Jardins, em São Paulo, na noite de 14 de novembro, terça-feira. Ali estava ocorrendo uma noite de pizzas, em favor da candidatura mencionada, com um roteiro previamente estabelecido: exposição da plataforma de campanha aos convidados, constituídos prioritariamente por gente da colônia italiana na capital, entre eles o barítono Dante Perini. Porém, antes que o programa fosse iniciado, Dante se aproximou de Wálter e lhe disse que seu apoio seria traduzido na interpretação de uma canção. Tomou no microfone e começou a entoar, à capela, La Strada Del Bosco, do florentino Gino Bechi (1913-1993).  Aos primeiros versos, já houve a certeza, tanto do candidato como da sua equipe, aliás, em concordância tácita com os convidados, de que discursos e divulgações deveriam ficar para mais tarde. Ou até outra ocasião. Como proclamou Camões em “Os Lusíadas”, um poder mais alto se alevantava.

Dante Perini roubou a cena. (*)

Vieni, c’è una strada nel cuore– Em principio, houve um temor justificado de que Dante, na sua iniciativa, fosse traído por alguma desafinação, previsível nas vozes nonagenárias. Mas o tom mais grave e aveludado e uma certa cor viril que caracterizam os barítonos, em compartida à sonoridade abertas dos tenores, reverberou no salão superior da pizzeria, sem qualquer contratempo ou defeito. Sim, Perini é um barítono, ou baixo cantante, como preferem nostalgicamente os amantes ortodoxos do bel canto.

Desde que a ópera foi inventada pela dupla Jacopo Peri (compositor) e Ottavio Rinuccini (libretista) em 1549, sob as últimas luzes do Renascimento, os barítonos sofrem a crônica injustiça de serem ofuscados pelos tenores. Estes trazem maior agilidade nas cordas vocais e isto lhes permite fazer  os ornamentos flexíveis e prolongados que levam as platéias aos transes. Verifiquem a lista das mais conhecidas estrelas masculinas operísticas. Giovanni Martinelli, Enrico Caruso, Mario Lanza, Luciano Pavarotti, Plácido Domingos, José Carreras, Andrea Bocelli… Todos tenores! Uma honrosa exceção é justamente o barítono pisano Tita Ruffo (1877-1953), que conseguiu ombrear com Caruso. Se não fosse uma celebridade, não teria sido convidado para inaugurar o Theatro Municipal de São Paulo em 1911. Ele fez o príncipe Hamlet, na peça do mesmo nome, do francês Ambroise Thomas. De modo que, naquela primeira ópera mencionada, provavelmente o deus Apolo, pois as partituras se perderam, foi representado por um tenor, personagem principal da trama em que ele persegue inútil e febrilmente o amor da ninfa Dafne, caracterizando talvez o primeiro assédio sexual que se tem notícia.

Dante Perini não escapou do destino reservado aos barítonos. Curiosamente, foi levado à música por um deles, o cantor Francisco Alves (1898-1952). Tinha cerca de 17 anos e gostava de imitá-lo. (Convém lembrar que esse artista, conhecido como Chico Viola, era um dos grandes ídolos do país. Sua morte – em desastre de carro no dia 27 de setembro de 1952, sábado, na Estrada Velha Rio-São Paulo, próximo à cidade de Pindamonhangaba – paralisou o Brasil. A Dutra ainda era um sonho a se materializar na prancheta dos engenheiros. A Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a mais poderosa e importante do país, interrompeu a programação para transmitir peças de réquiem em sinal de luto).

O dom de Dante para cantar levou-o a se matricular no Conservatório Carlos Gomes, Rua da Glória, no centro de São Paulo,  para estudar música. Era o primeiro passo para construir uma rica e divertida trajetória dedicada às notas, como professor e cantor. Esta escola era dirigida pelo maestro e violoncelista Armando Belardi (**), nascido no Brás, filho de italianos, que está à espera de um biógrafo para registrar sua importância na vida artística da cidade. Foi diretor artístico do Municipal, criador do seu coro lírico e da Orquestra Sinfônica Municipal.

Na sua agradável e inesperada audição na Pizzeria Margherita, Dante Perini esbarrou com outro colega de voz. Abriu sua apresentação com a canção “La Strada del Bosco”, cujo autor, Gino Bechi (1913-1993), também era barítono. 

 

Vieni c’è una strada nel bosco

Il suo nome conosco

Vuoi conoscerlo tu

Vieni c’è una strada nel cuore

Dove nasce l’amore

Che non muore mai più 

Giacomo Puccini

Mr. Sharpless & Miss Cio-Cio-San – Porém, apesar de perfeita, a voz de Dante emitiu um quase imperceptível tremor ao cantar trechos da parte que cabe a Mr. Sharpless, cônsul norte-americano em Nagazaki, Japão, na ópera “Madame Butterfly”, de Giacomo Puccini (1858-1924). Nada a estranhar. É o seu papel favorito,  entre todos que fez como barítono, particularmente nos teatros Municipal e Arthur Azevedo, ambos na capital paulista. Jamais a repetição lhe foi ou será enfadonha em razão das emoções derramadas. Esta peça, que estreou no Scala, de Milão, em 1904  descreve o infortúnio da gueixa Cio-Cio-San, apaixonada pelo tenente da marinha americana Benjamin Franklin Pinkerton, que fora servir em Nagazaki durante certo período. Dele tem um filho. A trama da ópera se desenvolve no momento em que o americano regressa aos Estados Unidos para se casar com uma conterrânea, enquanto a gueixa, ignorando sua leviandade, aguarda seu retorno. O ápice dramático da peça é o instante do encontro entre as duas mulheres. Cio-Cio-San pratica o hara-kiri.  

Sharpless

(Seriamente e bonario)

Ier l’altro, il Consolato sen’ venne a visitar!

Io non la vidi, ma l’udii parlar.

Di sua voce il mistero l’anima mi colpì.

Certo quando è sincer l’amor parla così

Sarebbe gran peccato le lievi ali strappar

e desolar forse un credulo cuor. 

Dante Perini mora na Aclimação, em São Paulo. Preside  Unione Italiana, instalada no Alto da Mooca. Ali, nas noites de quinta-feira, os membros se reúnem para comer massa e cantar.

No dia 19 de novembro Dante e a esposa embarcaram de navio para a Itália. Temporada de um mês, para rever parentes e passear.

Levavam no bolso ingressos para espetáculos no Scala de Milão.

(*) A matéria eleitoral da noite encontra-se em outro espaço deste site.

(*) Armando Belardi (1898-1989) deixou o livro autobiográfico “Vocação e Arte” (Edição Casa Manon) que apresenta um interessante recorte paulistano de época na primeira metade do século XX. Em um dos relatos, informa que Heitor Villa-Lobos, ainda pouco conhecido, vinha a São Paulo para se reunir com ele e músicos da cidade. Hospedava-se no modesto Hotel Palace, na Rua Florêncio de Abreu, endereço bem conhecido por hóspedes de carteiras modestas.  Através de Belardi Villa, como era chamado, conheceu a mecenas Olivia Penteado, freqüentou seus refinados saraus e teve seu apoio para estudar em Paris.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here