O adeus de Juó Bananére

Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, criador de Juó

Por José Maria dos Santos

As pessoas que acreditam em reencarnação podem perfeitamente supor que o engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado tenha sido um feliz italiano em suas existências passadas. Esta suspeita nasce da sua evidente simpatia pela nacionalidade sem haver uma causa aparentemente tipo ascendência italiana, conforme assegura o seu sobrenome tipicamente português. A paixão está expressa nas crônicas que escreveu a respeito da colônia de São Paulo. Ele era um jornalista respeitado no seu tempo, bem lido no Estadão e no debochado semanário “O Pirralho”, criado pelo escritor Oswald de Andrade.

Caricatura de Juó Bananère desenhada por Lemmo Lemmi (Voltolino)

Como o Estadão é suficientemente conhecido, convém falar alguma coisa sobre o segundo. Era um semanário satírico de costumes, que circulou de 1911 a 18, lançando as primeiras idéias da célebre Semana Modernista de 1922. O fato de ser bem aceito pelo exigente Oswald na publicação atesta a qualidade dos seus textos. Vejam como ele era criativo e original! Seus escritos traziam a especial particularidade de reproduzir um patois (patuá), isto é, uma espécie de dialeto que os imigrantes falavam, misturando o Italiano e o Português nos mais variados sotaques. Foi muito bem sucedido, pois  era facilmente compreendido, ao mesmo tempo em que as distorções e a entonação são claramente perceptíveis na combinação bem humorada das palavras. Acresce que sua ironia apimentada aumentava a atração pelas suas colaborações. Como não rir da sua paródia ao conhecido poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, convertido à linguagem da ‘italianada’ paulistana? 

Oswald de Andrade – 1920

“Migna terra tê parmeras
Che canta inzima o sabiá
As aves che stó aqui
Tambê tuttos sabe gorgeá

A abóboras celeste tambê
Che tê lá na mia terra
Tê moltos millió de strella
Che no tê na Inglaterra

Os rio lá sô mas grande
Dos rios de tuttos naçó
I os matto si perde de vista
Nu meio do imensidó

Na migna terra tê parmeras
Dove canta a galigna dangola
Na migna terra tene tê Vaprelli
Che só anda de gartolla. 

Suas crônicas foram reunidas num livro intitulado “La Divina Increnca”, que brincava com a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Vale à pena recordar o seu lançamento. Ocorreu na Casa Garraux no dia 4 de janeiro de 1916. Esse estabelecimento foi um marco na história de São Paulo por ser, salvo engano, sua primeira livraria, além do refinamento de oferecer produtos importados diretamente de Paris. Era muito chique freqüentar a Casa Garraux. Nasceu da iniciativa de um francês chamado Anatole Louis Garraux, que a inaugurou por volta de 1860 na Praça da Sé. Por ocasião do lançamento, já estava na Rua XV de Novembro.

A primeira edição do livro mereceu ilustrações de Voltolino, melhor dizendo, Lemmo Limi (1884-1926), que era um lendário cartunista da época. É oportuno lembrar que Voltolino fez seus desenhos para o livro “Narizinho do Nariz Arrebitado” (1920), de Monteiro Lobato, que mais tarde se fixaria no título “Reinações de Narizinho.” Portanto, foi Voltolino quem deu o rosto à graciosa neta de Dona Benta.

“Lá Divina Increnca” teve um segundo lançamento em 1993, como parte das comemorações da Faculdade de Engenharia da USP (Poli) onde o engenheiro Alexandre se formou. A edição mais recente é da Editora 34. Leiam agora sua paródia do poema “Ouvir Estrelas”, de Olavo Bilac.

Monteiro Lobato

Uvi strella

Che scuitá strella, né meia strella
Você stá maluco! E io ti diró intanto
Che pr’iscuitalas monta veiz livanto
I vô dá uma spiada na gianella 

I passo as notte acunversáno c’oella
Inquanto che as outra lá d’um canto
Stó mi spiano
I o sol como um briglianto nasce.
Ógliu p’ru céu. Cadê strella? 

Direis intó: ô mi inlustre amigo!
O che é Che as strella ti dizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

 E io te diro. Studi p’rá interdela
Pois só chi giá studó Astrolomia
É capaiz di intendê istas strella 

O engenheiro Alexandre Ribeiro Marcondes Machado (Pindamonhangaba 1892- São Paulo 1933) escrevia sob o pseudônimo de “Juó Bananére”  (João Bananeiro, personagem habitual da cultura caipira e foi assim que entrou para a nossa literatura. Ele recolheu a inspiração para as suas crônicas e paródias nos bairros paulistanos do Brás, Barra Funda, Bom Retiro, Belenzinho e Bexiga.  Certamente ouvia a cantante prosa ítalo-brasileira nas suas andanças pela cidade e nas incursões pelas rodas boêmias. Os rasgados elogios de Monteiro Lobato, Oswald de Andrade e Alcântara Machado revelam que impunha respeito à intelectualidade paulistana do seu tempo.

Morreu em 1933. Durante o período de doença que antecedeu sua partida, deixou uma despedida naturalmente bem humorada e devidamente redigida no patois que identifica sua obra.

Alcântara Machado

“Io mi sento cumpretamente apenhorado co interesse che voçeis mostráro c’oa sospençó intemporarie de migna modesta ingollaboraçó. Io, um povero barbieri desvalorizado, modesto professore, membrano dos Gademia Baolista di Letteri, Gademia Brasiliéri di Corte Donna Xiquinha i vários outra ecc ecc.

Ista suspensió porê independente de a migna vuluntá. Fui u caso che io fiqué ammalato, aguardano u lettto inzima de a gama faize quase uno anno giá. Urtimamente as cosa pioraro e io tive de sospendê a attividade giurnalistiche. Ma ricomincio oggi de nuovamente che giá stô um poço miglioro. Mas senza cumpremissu, pérché se io apiorá de nuovo io aparo outra veis”. 

*Alexandre “Juó Bananére” Ribeiro Marcondes Machado está sepultado no Cemitério da Consolação, na capital paulista.

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