Mãe Achiropita

É possível que a denominação Nossa Senhora da Achiropita seja uma das mais enigmáticas entre as dezenas de nomes que Maria já recebeu. Porém nada tem de estranho para as pessoas que conhecem o dialeto greco-calabrês, falado na simpática Calábria, no sul da Itália.E esta é outra curiosidade deste texto. Lá, como nas variadas província do país, a língua italiana divide espaço com idiomas regionais. No caso, o ar grego se deve à proximidade com os helenos. A Grécia está a cerca de mil quilômetros  e na Antiguidade, quando era poderosa, digamos,  no tempo em que Platão (428-348 aC) era criança,

A igreja fica localizada Rua Treze de Maio , 478 , Bela Vista

deitava influência por toda aquela área. Não por acaso, a “Ilíada”, de Homero, e depois a “Eneida”, de Virgilio, cantam a viagem do herói troiano Eneias buscando refúgio na região, após ser derrotado pelos atenienses na célebre Guerra de Tróia. Naquele tempo a Itália era conhecida como Hespéria, que inspirou o nome do famoso clube de São Paulo. Mas nenhum dos dois poetas poderia imaginar, ou prever, que, milênios, depois uma palavra de origem grega lá enraizada, achiropita, seria pronunciada com familiaridade pelos paulistanos. Significa “aquilo que não foi pintado por mãos humanas”. Refere-se a uma pintura sobrenatural de Maria com o seu Menino.

Caso estejam gostando dessa história, prossigam na leitura para constatarem como Maria trouxe a palavra para cá, auxiliada pelos calabreses.

No ano de 580 – Eis como as coisas se passaram. Nesse ano de 580, quando o império romano dava seus últimos suspiros, um certo Capitão Mauricio, de quem não há maiores referências, se safou de uma séria tempestade em alto mar, ao atracar numa aldeia no sul da Itália. Como o medo faz todo mundo se arrepender dos pecados, ele, durante o perigo, prometeu erguer um santuário para Maria. Já em terra, um monge confirmou suas intenções, que deviam ter  caráter premonitório, ao lhe dizer que a própria Maria criara as circunstâncias para levá-lo a construir a igreja ali. Prédio levantado, um pintor local tratou de ilustrá-lo com uma pintura de Nossa Senhora e o Menino Jesus.Porém, o que fazia ao dia era apagado misteriosamente à noite, sem que se descobrisse a causa, apesar da vigilância severa que passou a ser feita. O enigma se repetiu e se extinguiu no dia em que uma bela mulher, acompanhada de um menino, entrou para rezar. Devido à longa  demora para saírem, o zelador da igreja foi verificar o motivo e em vez de encontrá-los, deparou com mãe e filho estampados na parede. Nesse dia nasceu Nossa Senhora de Achiropita – Nossa Senhora não pintada por mãos humanas! Tais  fatos se teriam dado na atual comuna de Rossano, aliás, um magnífico centro de arte religiosa bizantina, que abriga 34 906 habitantes. A devoção só fez expandir.

No início do século XX, imigrantes calabreses trouxeram para cá uma imagem da santa consigo, ao fugirem da fome e da falta de emprego. De início, ela ficou na casa de um dos fiéis, onde se promovia habituais novenas até que ganhasse sua igreja, construída com o dinheiro arrecadado entre as famílias do bairro da Bela Vista, o velho Bixiga. É o templo que está na Rua 13 de Maio, 478, com elementos que lembram nosso barroco na fachada, inaugurada em de março de 1926. Portanto, quando vocês a verem no altar, lembrem-se dos braços que a carregaram na travessia.

Fé ecumênica – Salvo engano, a igreja de Nossa Senhora Achiropita é pioneira na bem vinda integração movida pelo Ecumenismo em nosso país, reunindo à sombra do mesmo altar brasileiros, italianos e africanos, com suas próprias crenças. O primeiro passo se deu através da comida, com a  Festa de Nossa Senhora Achiropita, cuja primeira edição se deu no ano da inauguração da igreja. Aliás, neste momento a 91ª  edição esta a pleno vapor, pois a comemoração ocorre religiosamente de 15 de agosto a 3 de setembro. O encontro  É agradável imaginar que, nessa confraternização, as delícias da cozinha italiana de certo modo adquirem luzes da Santa Ceia.

O segundo passo veio por meio da Escola de Samba Vai-Vai, que nasceu  no bairro em 1930 e lá tem sede desde os tempos em que era cordão. O segundo passo foi o Carnaval. Atenção: estamos falando de uma celebração popular tida como pagã. A crônica a esse respeito é rica e comovente. Várias alas da escola fazem seus ensaios nas salas paroquiais da igreja, principalmente a ala das baianas, sob as bênçãos de Maria. Em 2015, quando a escola  conquistou seu último campeonato, organizou uma espécie de procissão que adentrou à igreja para agradecer a premiação. Houve oração coletiva ao som de agogô e reco-reco e o puxador de samba-enredo, o cantor Tobias, entoou “Ave Maria dos meus andores” (Jaime Redondo/Vicente de Paiva) em tributo de agradecimento: Ave Maria dos meus andores/rogai por nós, os pecadores…

Voltemos à história da igreja de Rossano na Calábria. Os cerca de 9 400 km que separam São Paulo da região não impediram que Achiropita viesse para cá.

É agradável imaginar que Maria também tivesse previsto.

(*) Esta seção tem a finalidade de ressaltar o valor e os benefícios da mistura de culturas dos povos no foco do Brasil e da Itália, com o intuito de associá-los à campanha e futura atuação do desembargador Walter Fanganiello Maierovitch, ítalo-brasileiro, ao Parlamento italiano na qualidade de deputado.

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