Meu Brasil italiano

Filó

Filó Guarisi

A arte de ser brasileiro e italiano ao mesmo tempo

Salvo engano, talvez ninguém tenha tido tanta dificuldade para ver o seu nome ser bem compreendido pelos outros. Segundo escreveu Karl Marx na sua, famosa máxima no livro “18 Brumário de Luis Bonaparte” (1852), de algum modo o fato se repetiu como farsa. Embora tal duplicidade pareça inacreditável, ficará perfeitamente explicada no decorrer desta leitura.

Ele recebeu o nome de Amphilóquio em 1905. É de se imaginar a sensação que causava no momento da chamada escolar. Se tivesse nascido seis anos depois, pelo menos haveria uma simplificação em favor de melhor entendimento idiomático, com a substituição das letras P e H  pelo F, conforme determinou a sensata reforma ortográfica  da língua portuguesa que, então, fora empreendida. Já não mais se escrevia a palavra fósforo assim: phósphoro!

A escolha do nome foi uma homenagem ao filósofo e bispo cristão Anfilóquio de Icônio, que, no século IV, viveu na Capadócia, hoje território da Turquia, mesmo lugar em que São Jorge veio ao mundo.  Sua aventura onomástica teria o segundo capítulo na Itália, quando o futebol levou-o para lá. Segundo consta, passou a ser chamado Anfilogino.  Em principio, não encontramos explicação para a mudança, que pareça ser uma troca de seis por meia dúzia.  Mas é de supor que se, para nós, foi uma maneira duvidosa de facilitar a comunicação, aos italianos a fonética poderia ser mais ao gosto de lá. No entanto, em breve, ele seria tratado por Guarisi, sobrenome italiano de família que, seguramente, deve ter sido superiormente apreciado.

Anfilóquio, ou (1905-1974) ficaria famoso no Brasil sob o apelido de Filó (*). Mostrou-se um atacante extremamente habilidoso. Além disso, jogava com elegância, conforme a registra a crônica da época, ornamentando assim os seus costumeiros gols na clássica mistura que completa a festa dos torcedores.

Era bom de bola, pois aos 20 anos estava na Seleção Brasileira e no Clube Athlético Paulistano, onde fazia dupla com o também célebre Arthur Friedenreich. Este clube, que tem 117 anos, extinguiu o departamento de futebol por não concordar com sua profissionalização. Teve o mérito de  inaugurar a subida do Brasil ao primeiro lugar do pódio da bola em 1925. Numa excursão à França, venceu 10 dos 11 jogos disputados, goleando inclusive o selecionado francês por 7 X 2. Os jornais franceses, entre eles o conhecido “Le Fígaro”, fundado em 1826, chamaram o time alvirrubro de “les rois du football”.

Lazio – Via de Santa Cornelia 1000  Roma –  No ano de 1931 Anfilóquio estava na capital italiana, contratado pela Società Sportiva Lazio, clube que divide com a Associazione  Sportivas Roma as preferências da cidade. Tem a cor azul celeste em contrapartida ao grená do rival. A transferência deve ter sido rumorosa na ocasião, pois a Lazio, numa só tacada, levou mais 11 jogadores brasileiros, o que lhe valeu o trocadilho “La Brasilazio”: De Maria, Del Debbio, Rato (Corinthians); Pepe, Duilio e Enzio Serafini (Palmeiras); Ninão, Nininho e Niginho (Cruzeiro), Tedesco (Santos) e Benedito (Botafogo).

Devido à sua condição de oriundi – cidadão italiano por parte da mãe – Filó seria convocado para a seleção italiana (1934), familiarmente conhecida como azzura em razão do uniforme azul,  pelo técnico Vittório Pozzo (1886-1968). Além de seus títulos – bicampeão mundial em 1934/38 e olímpico em 1936 – ele deve ser mencionado por duas marcas ruidosas da sua carreira:  em certos ângulos, a elegância no vestir o aproximava do lendário Duque de Windsor; por ocasião do batismo do estádio de Turim para a Copa de 1990, realizada na Itália, seu nome foi rejeitado por causa das ligações com o ditador fascista Benito Mussolini, numa demonstração de que os italianos não esquecem com facilidade. Prevaleceu a denominação Delle Alpi (Estádio dos Alpes).

Inadvertidamente, Filó, em 1934, se tornou o primeiro campeão mundial brasileiro de futebol, talvez o único quesito em que Pelé foi derrotado no nosso País, no terreno do futebol. Contudo, se forem considerados os estreitos vínculos entre os dois povos decorrentes da imigração e miscigenação, não seria exagero dizer que ficou tudo em casa. Seria igual se, numa remotíssima possibilidade, Portugal ou Moçambique colocassem a mão na taça. A linguagem do sangue sempre fala mais alto. Nesse tópico, não fica despropositado fazer uma analogia com a eleição da qual Walter vai participar em Março, com a intenção de ser, simultaneamente, um deputado brasileiro e italiano, servindo as duas nações.

(*) Como não há registro seguro sobre o apelido Filó, ele pode ser interpretado de duas formas. 1. O hábito de alguns jogadores em usar a famosa touca rendada, que servia para disciplinar os cabelos durante os jogos. E também para  proteger a cabeça do agressivo contacto com o couro áspero da bola no ato do cabeceio, particularmente na intersecção para o enchimento da câmara de ar, amarrada com fios do mesmo material. 2. Metáfora da rede que guarnece as traves, chamada de filó na gíria futebolística, em conseqüência da sua condição de artilheiro. 3.  A palavra nomeia encontros de famílias italianas para festejar alguma coisa ou simples congraçamento social. No caso de Anfióquio, pode ser o apelido advenha, por associação de ideia, da sua origem italiana.

Equipe do Paulistano em excursão à Europa em 1925. Filó é o primeiro jogador posicionado em pé à esquerda na foto.
Equipe do Corinthians em 1930. Filó é o primeiro jogador agachado do lado esquerdo.
Equipe do Corinthians em 1930. Filó é o primeiro jogador agachado do lado esquerdo.
Equipe da Lazio na temporada 1931-1932 que ficou conhecida como “Brasilazio”. Filó é o terceiro jogador da esquerda para a direita

 

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