Máfia Siciliana e Ricci Di Mare

mafia siciliana

Máfia Siciliana e Ricci Di Mare

Candidato a deputado no Parlamento italiano, — meu caso–, também se alimenta. Por exemplo, gosto muito de uma pasta “al dente” com molho de “Ricci di Mare”. Os “ricci” são frutos do mar. A aparência é de um ouriço, sim aquele que espeta e deixa o espinho quando o desavisado banhista se apoia os pés nas pedras banhadas pelo mar. Só que tem uma coisa, os “ricci” do mediterrâneo são comestíveis: corta-se ao meio e se extrai a ova avermelhada. Os espinhos são externos, muitos italianos não fazem o delicioso molho. Colocam limão e comem como se faz com as ostras.

Na Sicília, uma “pasta” com molho de “Ricci di Mare” é apreciadíssima. Todos os bons cardápios de restaurantes palermitanos recomendam “Spagnetticon i Ricci di Mare”.
Certa vez e por ocasião do aniversário de morte do juiz Giovanni Falcone, dinamitado pela Máfia siciliana em 23 de maio de 1992, fui a Palermo. A recomendação é que todos os que iriam participar do encontro para recordar Falcone ficariam hospedados no hotel Villa Igea.
O magnífico hotel, reservado aos participantes do encontro e todo cercado por viaturas e policiais fortemente armados, foi construído no século XIX e por um dos homens mais ricos da Europa. O italiano Flório, ou melhor, o chefe da família Flório. Até hoje existe o vermute que produzia. Igea, filha do armador e exportador italiano da família Flório, estava muito doente: tuberculose. Os médicos recomendaram que passasse a viver à beira mar. E o zeloso pai construiu uma vila, com o nome da filha: Igea. Tudo com um terraço alto com vista à bahía e um jardim mediterrâneo maravilhoso, cuidado até hoje. No terraço está enfincada uma coluna jônica alta, do tempo do império romano.

No apartamento, com móveis da época, encontrei na escrivaninha um aviso de não sair do hotel, pois, no primeiro ano de morte de Falcone, não se tinha ideia dos planos da Cosa Nostra (Máfia siciliana). No hotel, todos estariam em segurança, aliás bastava olhar da janela a quantidade de policiais, cães de guarda e luzes azuis a piscar intermitentemente.
Por volta das 18 horas encontrei o sociólogo e fraterno amigo Pino Arlacchi. Pino se tornou o vice-secretário geral da ONU, quando as Nações Unidas eram conduzidas por Koff Annan. Pino era um dos três nomes sentenciados de morte pelo sanguinário Totó Riina, “capo dei capi”, da Cosa Nostra siciliana.

Arlacchi me segredou que, por questões de segurança, não colocava os pés em Palermo há cinco anos. E que estava morrendo de vontade de comer “Spaghetti com alsaai Ricci di Mare del Mediterraneo”.

Jamais eu havia ouvido falar nesse molho. Com água na boca, marquei com Pino uma transgressão, ou melhor, deixar o hotel e comer, num restaurante de Palerno o spaghetti.
Por questão de segurança, não era possível fazer reserva. Chegamos ao restaurante e, quando os clientes que jantavam viram o Pino, foi um sussurro e muitos a pedir a conta. Pensavam poder a Máfia siciliana invadir o restaurante para matar o Pino Arlacchi.
O dono do restaurante apavorado,mas sem perder o seu lado “furbo” (espertalhão) disse estar lotado e recomendou, — do outro lado da rua–, um outro restaurante, que reconhecia preparar uma pasta com “Ricci di Mare” bem melhor.
Descobrimos depois que o tal lado de lá da rua era território mafioso e a presença de Arlachi era uma afronta.

Pano rápido: saímos do restaurante dez minutos depois do ingresso. Lógico, sem “Ricci di Mare” e com soldados armados até os dentes a formar um corredor polonês.
Em tempo: nas minhas anuais visitas à Sicília me espaldo com spaghetti al riccidi mare. Vou ao restaurante que fica na praça palermitana de Santo Andréa, conhecido pela presença de jornalistas, atores e escritores.

Sobre como se prepara o “Ricci di Mare” dizem que com molho de tomate. Sei que tem gosto de mar. Uma maravilha. Fica melhor quando acompanhado do vinho da minha predileção, um Amarone dela Valpolicella.

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia.

    Lembrei de Al Pacino em O Poderoso Chefão, na cena do restaurante em que ele mata o mafioso e o chede de polícia.

    Ótima história. Poder contá-la, melhor ainda . . . . . . . .

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here